Bikram: Yogi, Guru, Predator
- Mahara Soldan
- 6 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Um guru excêntrico, "yoga quente" e casos de abuso sexual
Enredo
A popularização da prática de yoga nos EUA e no mundo a partir da década de 70 são o cenário para Bikram Choudhury, um imigrante indiano vivendo na Califórnia. Ele desenvolveu uma técnica de treinamento de yoga atraente e desafiadora, criando um império de franquias, arrecadando seguidores - e milhões de dólares - em todo o mundo. Acontece que além de uma figura exótica e interessante Bikram também se revelou um predador sexual e é esta a história que o documentário Bikram: Yogi, Guru, Predator conta.
Estas figuras que conseguem engajar legiões de seguidores sempre rendem histórias interessantes. Para nós, reles mortais, é intrigante com uma pessoa pode exercer tanto poder sobre as outras e curioso para quem olha de fora, o quão longe os fãs podem chegar cativados pelo líder. No caso de Bikram a mágica acontece em gigantescas salas aquecidas a mais de 40 graus, abarrotadas por praticantes de yoga em treinamento nesta avançada e vigorosa técnica.
São corpos sarados e suados em posições de yoga que mais parecem grostolis humanos, guiadas por um indiano frenético usando apenas uma sunguinha e um relógio Rolex.

Ele grita constantemente, canta, faz piadinhas, ora engraçadas, ora preconceituosas, ele amedronta de tão intenso. Mas uma coisa não se pode negar, ele é uma força. Com o perdão da piada, podemos descrevê-lo como uma mistura de guru da iluminação transcendental com João de Deus, e por aí já dá para ter uma ideia com o que estamos lidando.
O documentário é bem dirigido e não parece ser uma enorme campanha contra o instrutor. Os relatos são de praticantes, apoiadores e também de vítimas dos seus abusos, mas em nenhum momento o filme apela para o sensacionalismo apelativo do sofrimento. O tempo todo traz para a luz o quão ambivalente pode ser esta figura e a sensação que desperta nas pessoas. A fala durante o treinamento é também recheada de incentivos, "você consegue", "não desista", "você pode confiar em mim". Constantemente os entrevistados citam o quão transformador foi para eles a prática, o quanto eles se sentiram desafiados a superar seus medos e desafios e, o mais importante, o quanto Bikram pessoalmente os fazia sentir uma pessoa especial. Uma entrevistada cita, "ele te olha nos olhos, e você sente como se ele estivesse conversando com a sua alma".
Os relatos dos abusos enfocam a perspectiva do poder. Para além da questão do consentimento, a relação de abuso entre guru e seguidores se dá sob complexa construção de autoridade e veneração. Além do fato de parecer um absurdo não querer ceder a qualquer vontade do mestre, ainda tem a questão da formação de profissionais, portanto poderia não ser muito legal para a imagem de alguém que trabalha no meio o fato de ter feito alguma denúncia ou declaração contra Bikram ou se colocasse a falar sobre os abusos que aconteciam.
Outro ponto importante de ressaltar é os acontecimentos se dão por volta do início da década de 2000, portanto antes do surgimento de campanhas que falam sobre o abuso sexual e estimulam a denúncia dos mesmos como por exemplo o Me Too. Neste contexto é ainda mais fácil entender o quanto estas pessoa estavam isoladas da possibilidade de denunciar o instrutor.
Por que ver?
Curtinho, bem montado e facílimo de assistir.
Um bom entretenimento para desopilar dos problemas do dia a dia por tratar de um universo diferente e tão interessante.
Agita o debate e questiona os nossos próprios julgamentos relacionados às questões sobre abuso sexual.
Por que não ver?
Para quem espera um final bonito ou redentor, pode ser bastante frustrante.
Ficha técnica
Ano: 2019
Duração: 86 min.
Onde ver: Netflix
(atualizado em março de 2020)
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